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quarta-feira, 23 de março de 2011

A tua voz

Como vês ainda não morri
Mais importante é saberes que te ouço
No silêncio dos dias ausentes
Tens-me sempre aqui

A tua boca minha amiga tudo me diz
Mesmo quando dobrada nos dentes
Se fecha
Desse lado ao lado de ti

Escuto o coração a falar de nós
Adoço o meu caminho
E a pensar em ti
Sigo levando no peito a tua voz

(João Sevivas)

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Voam-me das mãos as palavras
Que o peito semeia em duras lavras
Breves são esses momentos de colheita
Em que as sementes se tornam frutos
E a vida se cria
Outra voz, outro ser, outras chamas
Queimam o silêncio
Sedentos de poesia

(João Sevivas)

sábado, 26 de setembro de 2009


Dás-me a lua

Empresto-te o meu sol e dás-me a lua
Esfarrapada a caneta ouve a tua voz
E desenho em letras o colorido do teu canto
E fica em mim a maré que a desnuda

Mastigo areia e água
Mar de algas, corais e foz
Manto, sangue e ossos silenciosos e sós
Magoada saudade sem mágoa

É assim a praia mar
Do meu seco peito
Réstea de luz, meu acordar

És tu a quem me vou agarrar
Paz, sono e meu leito
Meu espanto perfeito meu imperfeito amar.

(João Sevivas, in InterAmor)

domingo, 6 de setembro de 2009


Alegria

Simples como a criança
Na alegria de viver
Ser bom, justo e acreditar
Que não paramos de crescer
Doutras vidas somos herança
Só por amor ser
A palavra, o sorrir, o amar
Só por amor repartir e dar.

(João Sevivas)

sábado, 20 de junho de 2009


Um tango

Mais um ano
As nuvens haviam entrado no carro
O limpa pára-brisas procurava em montículo de gotas
Uma saída
Algo escapava
Ela estava ali aguentando em lágrimas
O amor desvanecia-se em chuva
Parado o carro dançamos como os outros
Era uma festa de todos
Como todos os dias
Separados num vaivem igual repetido
Um cigarro na varanda trazia o som das ondas
Misturado a um compassado aperto
Fui
As areias eram corpos que empurravam
Ao cheiro de um mar presente
Abri o peito rasgado e sem resguardo
Deste-me a mão
De frente te puseste a meu lado
Nunca te vi tão bela
O mar as ondas mereavam
Um abraço urgente
Que me levou de encontro ao teu peito
E dançamos um tango
Ali na humidade da areia e dos nossos corpos
Um novo ano nascia antes do sol
Uno intenso
Numa madrugada que nunca seria de despedida

(João Sevivas)

segunda-feira, 15 de junho de 2009

A José Gomes Ferreira

Frases de suor e sangue
Poema de gente
Da gente pobre que sofre
Velha criança
Canta gigante
O mistério
Sentiste o pior
E foi com os outros
Que repartiste a esperança

A justiça tem o sabor a gente
Na tua boca
Tem força a solidariedade

A tua sede vem da paz
E em nós
Os teus anseios infinitos

És a terra
Em forma de homem
A gritar pela vida

A tua solidão
Feita da nossa voz
Abraça a verdade

E para nos dares a mão
Vestirias de carne o próprio céu

(João Sevivas)

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Para ti

Para ti

Quando ergui os olhos
Encontrei alguma paz
Cansados na areia
Molhados
Trouxeram-me o mar
Caminhei sobre as ondas
Sem medo de cair
Conhecia o fundo
Era preciso navegar
Era preciso descobrir
O vento cortava a carne
Pesada sem velas
Aumentava a distância
De novo só o ânimo
De inventar outra ilha
De arrastar
A pesada âncora
Mas segui
Até encontrar a praia
Aonde tu estavas à minha espera
E só então compreendi
Que eras a minha liberdade

(João Sevivas)

terça-feira, 9 de junho de 2009


Os teus olhos

São da cor do mar
Mas o mar não tem cor
Tem meu amor o mar tem cor
Olha o céu olha a água achas que o mar tem cor?
O mar é a placenta da vida
O mar é imenso
É azul verde castanho
Não o mar não tem cor
Tem meu amor o mar tem cor
Repara nos teus olhos eles são feitos de mar
E que cor têm os meus olhos?
Meu amor eles têm a cor do mar
Mas o mar não tem cor
Os teus olhos são o próprio mar meu amor

(João Sevivas, in esquinas de vidro)