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sábado, 31 de outubro de 2020

Era e Não Sou

 Eu era o sol, eu era vento e mar.
Um furacão à solta a fervilhar,
Era uma tempestade universal.
Era a força da própria natureza...
Era uma luz brilhante e sempre acesa
Tudo em mim era belo e natural.

A minha juventude era pecado,
Porque eu era um vulcão incendiado
Que ninguém dominada ou conhecia. 
Era ave que chega e vai-se embora
Rasgando o céu com as asas, mundo fora
Em busca de aventura e fantasia...

Eu era um golfinho, uma gazela,
Um desafio, um grito ou uma estrela,
Um cavalo a correr em liberdade...
Cheia de sonhos, ilusões, ideais,
Pedindo à vida muito, muito mais,
Não cabendo no corpo e na cidade...

A fúria de viver que outrora eu tinha...
A raiva de perder que era tão minha,
A febre do sucesso e da vitória...
Faziam parte da mulher que eu era,
Que tinha o mundo inteiro à sua espera
E escrevia no vento a sua hístória...

Hoje sou o que resta do que era...
A minha juventude, (quem ma dera!...)
Foi uma amiga que me abandonou.
Na batalha do ser saí vencida...
Já não há luz nem cor na minha vida...
De tudo isso o tempo se encarregou...

(Helena Rocha, in Beijos e Sorrisos)


 

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Segredos

As coisas que me dizes em segredo
Mexem com cada célula de mim...
É uma história louca, sem enredo
E eu quero que ela seja sempre assim.

Se alguém ouvisse, não entenderia
Nem poderia nunca perceber,
Este afecto tão grande, esta magia
Que nos envolve sem a gente querer...

Creio que nunca houve amor assim
Tão forte, tão sincero e verdadeiro...
Nem haverá no mundo até ao fim.
Somos um caso raro e pioneiro...

Cada olhar que me deitas é um beijo...
Cada sorriso teu um desafio...
Cada momento é risco e é desejo,
Cada carícia é paz e arrepio...

As coisas que me dizes quando falas
São nossas, são tão nossas, meu amor,
Que seria pecado revelá-las
Pois perderiam todo o seu valor.

Gosto que nós apenas, tu e eu,
De almas entrelaçadas, partilhemos
O milagre de amor que em nós se deu...
As coisas tão bonitas que dizemos!

(Helena Rocha, in "Beijos e sorrisos")

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Quero lá saber!

Quero lá saber se é Inverno ou Primavera!
Sinto a vida escorrer entre os meus dedos,
Tremo de frio, de nervoso e de medos
Em busca da mulher que outrora eu era...

Quero lá saber se é tarde ou muito cedo!
O relógio p'ra mim não conta nada...
Se é noite, se é manhã ou madrugada
o calendário esgota-se em segredo.

Quero lá saber se realmente existes!
Felicidade é fumo e ilusão...
Tão depressa a julgamos ter à mão
Como nos foge a rir de nos ver tristes...

Quero lá saber o que é isto que eu sinto
Quando a alma me dói de solidão...
E não me sei achar na multidão
Às voltas neste eterno labirinto...

Quero lá saber se há guerras ou há paz,
Se sou princípio, se sou meio ou fim.
Já não há coração dentro de mim...
Se te amo ou te odeio, tanto faz!

(Helena Rocha, in Beijos e Sorrisos)

terça-feira, 19 de março de 2013

VIAGEM NO VENTO

O vento sopra forte no meu rosto
Que sensação fantástica que tenho!
Sinto-me livre como o sol já posto,
dona de toda a arte e todo o engenho!

Parto com o vento pelo sonho fora,
conquisto terra, ganho mar e céu...
Liberto-me do aqui e do agora...
Fujo de mim para poder ser eu!

E o vento, que me beija e me possui
mostra-me o paraíso que lhe peço,
para que eu nunca esqueça que já fui
aquilo que não quero nem mereço...

Vento morno e veloz, que me conduz
onde mora a essência do que sou,
deixa-me acreditar que ainda há luz
nas trevas a que Deus me condenou.

Helena Rocha, in Beijos e Sorrisos

sábado, 22 de setembro de 2012

Menino da Rua

Criança que te arrastas pensativa
Pelas ruas do sonho e da cidade,
Limpa a lágrima súbita e furtiva
E ri-te com prazer e com vontade

Quero que faças do que te atormenta
Um brinquedo bonito e colorido...
Quero que esqueças o que a vida inventa
P'ra te fazer chorar, menino querido...

Crinaça vítima, criança dor
Que não conhece o abrigo, nem sequer
O aconchego doce do amor...
O gosto de um abraço de mulher.

Gostava de saber-te protegida,
De ter-te junto a mim constantemente...
Quero pôr fim à porca dessa vida
Que te agride e te marca injustamente...

Criança, rosto sujo, cor doente,
Corpinho nu, cansado de sofrer...
Vergonha de quem diz que está contente,
Maldição de quem vive por viver...

Quem me dera poder secar-te o pranto,
Sarar-te as feridas e guardar-te aqui...
Criança, meu amor, quero-te tanto
Que não serei feliz se penso em ti.

(Helena Rocha, in Beijos e Sorrisos)