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domingo, 26 de fevereiro de 2023

NA LONJURA DO MEU OLHAR

Meus olhos perdiam-se na lonjura
Quando p'los extensos caminhos eu ia
Levava em mim uma imensa ternura
Que em nenhum outro lugar eu sentia!

Era aquele pôr do sol sem igual
E o perfume da terra molhada
Vermelha, cor do sangue tropical
Que fervia em noite de batucada!

Saudosa terra, áfrica tão minha
Ficaste com meu triste coração
Que chora esta dor que me definha...

Ai, Angola terra do meu viajar
Onde eu vivi com imensa paixão
Não nasci em ti, mas sempre te irei amar.

José Carlos Moutinho, in "Mar de Saudade"



domingo, 29 de janeiro de 2023

NÃO SEI

 Não sei do tempo que já não é meu
Nem sequer me importo
Com o que ele tenha para me dizer
Não sei das horas de espera
Que me fizeram esquecer o amor!

Não sei se na verdade vivi outro tempo
Além deste em que me encosto
Ou se as brisas que me sibilam
Serenas, me querem dizer algo
Não sei das palavras que se perderam
Nas tardes esmorecidas!

Não sei, confesso, se as areias douradas
Daquela minha praia
Gostavam da minha presença
Ou se o mar que me acolhia de braços abertos
Tinha prazer nos meus mergulhos juvenis!

Não sei de nada do passado
Que se fez passageiro da minha vida
Nem tampouco sei
Se tive alguma importância
Para que o passado me faça recordar!

Não sei, francamente, não sei
Se o meu advir terá a mesma alegria
E a mesma felicidade
Que eu tive a sorte de ter vivido
Não sei...

Não sei...
Se calhar, nem me interessa saber
Só sei que vivo cada momento
E o que passou, já foi
O que tiver que vir, virá.

José Carlos Moutinho, in "Mar de Saudade"

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Quimeras



Quero correr pelas areias molhadas
Desta praia que me aceita como sou
Quero escutar os murmúrios dos búzios
Cantando-me canções de amores improváveis
Quero ser salpicado pelo sal da água
Que do mar se faz maresia
Quero sorrir às gaivotas
pela alegria do seu grasnar!
Sinto-me flutuar numa felicidade
Que desconheço
Afago-me com os raios solares
Num luxúria estranha
Penso-a presente em mim
Acaricio os seus cabelos
Na leveza de pétalas de orquídeas
Invento-a no abraço que me dou!
Suspiro no marejar das gotas
Que me sulcam os poros
Enlevo-me no canto do mar
Que em acordes melodiosos
Se espraia a meus pés
Em branca espuma de prazer!
Sinto-me livre das mágoas
Que os dias me infligiram
A brisa que me assobia suavemente
Traz-me a serenidade
Que eu quero em mim, para sempre.


(José Carlos Moutinho, in Mar de Saudade)