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sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Espelhado no mar

Ao lusco-fusco do dia, que se despede
Apraz-me escutar-te, beleza melódica do mar.
Viagem sem tempo, as tuas continuadas vagas
Sempre outras, sempre novas
Hipnotizam-me, na sua falsa monotonia.
Extasiado, alcanço-te apenas com a imaginação
Sentindo nas tuas cadências de espuma brilhante,
A chegada mágica do teu errar, a ir e a voltar.
Espectador e só, continuo a buscar
Continuo a escutar e a esperar.
Mas tu afastas-me de mim,
Afastas-me tanto,
Que deixo de me ver e sentir,
Actor de teatro, no mundo e na vida.
Magia benfazeja,
Fazes crescer o meu eu,
Que se busca e escuta e espera,
Até ter um infinito enorme, sem tamanho.
E, então, por artes mágicas só de ti sabidas
Trazes-me à superfície o nada e o sublime.
E de mim para mim, então eu penso
Vais ainda por cá ficar e andar.

Miguel Almeida, in Ser Como Tu

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Era como se

Agora,
Com o peso da idade
A pesar-lhe no corpo,
Era como se
A missão, a razão fundamental
Tivesse sido sempre, na vida
A obrigação de preservar o essencial,
Para existir e não se resignar a morrer.

Agora,
Com o fardo dos anos
A pesar-lhe nos ombros,
Era como se
Lutar contra a decadência
Tivesse sido sempre, na vida
O sentido, o motivo fundamental
Para resistir e não se deixar abater.

Agora,
Com o peso da idade
A ameaçar roubar-lhe a vida,
Era como se
Esquivar-se ou lutar
Tivesse sido sempre, na vida
A história, a sua biografia autorizada
Para persistir e aceitar continuar a viver.

Miguel Almeida, in Sobre Viver ad ritmo poetae)