sábado, 16 de outubro de 2021

O silêncio da palavra

 A palavra anoitece
veste a escuridão
segreda-me os intuitos
com um hálito de cacimba.
Rotas e rotas
desenhadas no tempo
contam-nos histórias
momentos,
de intensos saberes…

A palavra é o silêncio.
Um chilrear,
acorda-nos devagar…
A luz brilha
no horizonte
vestindo a palavra
de um nenúfar
apoteótico
coberto de ilusão.

A palavra arrefece
na mudança de mão
de voz
esquece-se
e na solidão
fica quieta
presa
na escuridão…

A palavra é o silêncio
a pedra,
a história
ou o tempo que morreu…
despida,
perdida,
cala-se então!

(Paulo Afonso Ramos)


domingo, 24 de janeiro de 2021

A Amendoeira


No quintal do vizinho tem uma velha amendoeira.
Todas as suas folhas já caíram
como ocorre durante cada ventoso outono
até que chegue o inclemente inverno.
Que ironia!
Quando todos se abrigam
ela se desnuda e mostra
sem pudor
toda a pujança de seu tronco nodoso
e de suas retorcidas ramas.
Encarna Romero
©8002761

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Se tu vens

 Se dizes que vens
crescem-me açucenas no cabelo
voam-me andorinhas do olhar
há lava de vulcão na minha pele
e tremores de terra por baixo dos meus pés.
Se dizes que vens
sopro a coincidência dos silêncios
e faço da alma uma escultura de palavras.

(Olívia Santos, in "Nos teus olhos a janela do tempo")


segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Os Amigos

Os amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria -
por mais amarga.

 Eugénio de Andrade, in "Coração do Dia"

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Companhia

Não vivo só.
Sonhos e ilusões
alegrias e amores
que vivi,
quimeras que o tempo
jamais apagará,
vivem comigo
como vivem
a saudade, a desilusão,
a amargura e a dor.

Fazem parte de mim
e fazem-me companhia

Mário Mendes, in "A pena, que apenas..."


sábado, 31 de outubro de 2020

Era e Não Sou

 Eu era o sol, eu era vento e mar.
Um furacão à solta a fervilhar,
Era uma tempestade universal.
Era a força da própria natureza...
Era uma luz brilhante e sempre acesa
Tudo em mim era belo e natural.

A minha juventude era pecado,
Porque eu era um vulcão incendiado
Que ninguém dominada ou conhecia. 
Era ave que chega e vai-se embora
Rasgando o céu com as asas, mundo fora
Em busca de aventura e fantasia...

Eu era um golfinho, uma gazela,
Um desafio, um grito ou uma estrela,
Um cavalo a correr em liberdade...
Cheia de sonhos, ilusões, ideais,
Pedindo à vida muito, muito mais,
Não cabendo no corpo e na cidade...

A fúria de viver que outrora eu tinha...
A raiva de perder que era tão minha,
A febre do sucesso e da vitória...
Faziam parte da mulher que eu era,
Que tinha o mundo inteiro à sua espera
E escrevia no vento a sua hístória...

Hoje sou o que resta do que era...
A minha juventude, (quem ma dera!...)
Foi uma amiga que me abandonou.
Na batalha do ser saí vencida...
Já não há luz nem cor na minha vida...
De tudo isso o tempo se encarregou...

(Helena Rocha, in Beijos e Sorrisos)


 

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

O RANGER DE UMA SAUDADE

 Deitaste o meu corpo nas dunas, 
deixaste as palavras voarem com o vento.
Com cuidado retiraste o véu
feito com fios de lágrimas
que me cobre a alma... e sorriste.

Ousaste ver o brilho dos meus olhos.
Ousaste sentir o calor do meu corpo.
Deixaste versos espalhados na minha pele,
palavras de ternura nos meus lábios.
Deixaste a loucura no desejo de te ter...

Um sonho rendilhado de silêncios
que vai falando, baixinho... muito baixinho.

Ouve-se o ranger de uma saudade
que tenta crescer... alimentada por sussurros,
regada com ausências.
A terra é o sentimento que nos une.

(Vanda Paz, in Brisas do Mar)