quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Até Amanhã

Sei agora como nasceu a alegria,
como nasce o vento entre barcos de papel,
como nasce a água ou o amor
quando a juventude não é uma lágrima.

É primeiro só um rumor de espuma
à roda do corpo que desperta,
sílaba espessa, beijo acumulado,
amanhecer de pássaro no sangue.

É subitamente um grito,
um grito apertado nos dentes,
galope de cavalos num horizonte
onde o mar é diurno e sem palavras.

Falei de tudo quanto amei,
de coisas que te dou
para que tu as ames comigo:
a juventude, o vento e as areias.

Eugénio de Andrade, in  "Até amanhã"

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Oração do silêncio

Creio no silêncio...
na suavidade dos gestos,
na ternura das palavras não ditas.

Creio na cor dos sentidos
que pintam os voos de borboletas feridas.

Creio na simplicidade...
daquilo que dou,
daquilo que tenho.

E surpreendida me espanto
com tudo o que sou,
com tudo o que é belo.

E no silêncio me encontro
E em silêncio me espero!

(Maria João de Carvalho Martins, in Do outro lado do espelho)

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014