segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Os Amigos

Os amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria -
por mais amarga.

 Eugénio de Andrade, in "Coração do Dia"

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Companhia

Não vivo só.
Sonhos e ilusões
alegrias e amores
que vivi,
quimeras que o tempo
jamais apagará,
vivem comigo
como vivem
a saudade, a desilusão,
a amargura e a dor.

Fazem parte de mim
e fazem-me companhia

Mário Mendes, in "A pena, que apenas..."


sábado, 31 de outubro de 2020

Era e Não Sou

 Eu era o sol, eu era vento e mar.
Um furacão à solta a fervilhar,
Era uma tempestade universal.
Era a força da própria natureza...
Era uma luz brilhante e sempre acesa
Tudo em mim era belo e natural.

A minha juventude era pecado,
Porque eu era um vulcão incendiado
Que ninguém dominada ou conhecia. 
Era ave que chega e vai-se embora
Rasgando o céu com as asas, mundo fora
Em busca de aventura e fantasia...

Eu era um golfinho, uma gazela,
Um desafio, um grito ou uma estrela,
Um cavalo a correr em liberdade...
Cheia de sonhos, ilusões, ideais,
Pedindo à vida muito, muito mais,
Não cabendo no corpo e na cidade...

A fúria de viver que outrora eu tinha...
A raiva de perder que era tão minha,
A febre do sucesso e da vitória...
Faziam parte da mulher que eu era,
Que tinha o mundo inteiro à sua espera
E escrevia no vento a sua hístória...

Hoje sou o que resta do que era...
A minha juventude, (quem ma dera!...)
Foi uma amiga que me abandonou.
Na batalha do ser saí vencida...
Já não há luz nem cor na minha vida...
De tudo isso o tempo se encarregou...

(Helena Rocha, in Beijos e Sorrisos)


 

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

O RANGER DE UMA SAUDADE

 Deitaste o meu corpo nas dunas, 
deixaste as palavras voarem com o vento.
Com cuidado retiraste o véu
feito com fios de lágrimas
que me cobre a alma... e sorriste.

Ousaste ver o brilho dos meus olhos.
Ousaste sentir o calor do meu corpo.
Deixaste versos espalhados na minha pele,
palavras de ternura nos meus lábios.
Deixaste a loucura no desejo de te ter...

Um sonho rendilhado de silêncios
que vai falando, baixinho... muito baixinho.

Ouve-se o ranger de uma saudade
que tenta crescer... alimentada por sussurros,
regada com ausências.
A terra é o sentimento que nos une.

(Vanda Paz, in Brisas do Mar)


segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Quimeras



Quero correr pelas areias molhadas
Desta praia que me aceita como sou
Quero escutar os murmúrios dos búzios
Cantando-me canções de amores improváveis
Quero ser salpicado pelo sal da água
Que do mar se faz maresia
Quero sorrir às gaivotas
pela alegria do seu grasnar!
Sinto-me flutuar numa felicidade
Que desconheço
Afago-me com os raios solares
Num luxúria estranha
Penso-a presente em mim
Acaricio os seus cabelos
Na leveza de pétalas de orquídeas
Invento-a no abraço que me dou!
Suspiro no marejar das gotas
Que me sulcam os poros
Enlevo-me no canto do mar
Que em acordes melodiosos
Se espraia a meus pés
Em branca espuma de prazer!
Sinto-me livre das mágoas
Que os dias me infligiram
A brisa que me assobia suavemente
Traz-me a serenidade
Que eu quero em mim, para sempre.


(José Carlos Moutinho, in Mar de Saudade)

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

REVOLTA

Revolta dentro do peito
Por aquilo que não fiz
E que eu devia ter feito.

Revolta dentro de mim
Por tropeçar em mim mesmo,
Por não saber onde estou...
Por caminhar tanto a esmo
Que trago os passos perdidos
Nos próprios passos que dou.

Revolta desde menino
Por tantas horas perdidas
A procurar o Destino
Nas sombras doutros destinos.

Revolta crua e sem fim...
Tantos pedaços de mim
Que destrocei sem saber!...
Revolta, sempre revolta, 
Por um pedaço de céu
Que não me dão... e era meu...
Revolta, funda revolta,
Dentes rangendo na sombra.

Do fundo de um corredor
Crescem gemidos de dor
Dos escravos meus avós...
Grilhetas prendendo os pés,
Prendendo também a voz...
E o sangue formou um rio
E o rio correu para o mar
E foi chorar, noite e dia,
Nas praias de todo o mundo.

Revolta dentro de nós,
Revolta arrastando os passos...
Vozes mancharam-me a voz,
Braços prenderam os braços...
Voo desfeito no berço...

Revolta crua e sem fim,
Revolta triste e infeliz,
Por trazer esta revolta
Fechada dentro de mim,
Num verso que nunca fiz.

(Aguinaldo Fonseca, in Linha do Horizonte)


domingo, 6 de setembro de 2020

Leio-te

Leio-te 
como teus olhos
fossem um poema
mais belo de
sempre...
Leio-te, 
nas tuas mãos
alimentando os meus sonhos,
nos teus gestos
afagando minh'alma,
nas tuas carícias
que me desvelam
e me torturam.
Leio-te
nas tardes de Outono,
quando a noite se atrasa
repousando na sacada
perdido num pôr-do-sol.
Leio-te
em cada palavra 
discorrida
em cada livro,
imaginando-te...
leio-te
sem te aprender...

(Jorge Bicho, in "por dentro das palavras")