domingo, 6 de setembro de 2020

Leio-te

Leio-te 
como teus olhos
fossem um poema
mais belo de
sempre...
Leio-te, 
nas tuas mãos
alimentando os meus sonhos,
nos teus gestos
afagando minh'alma,
nas tuas carícias
que me desvelam
e me torturam.
Leio-te
nas tardes de Outono,
quando a noite se atrasa
repousando na sacada
perdido num pôr-do-sol.
Leio-te
em cada palavra 
discorrida
em cada livro,
imaginando-te...
leio-te
sem te aprender...

(Jorge Bicho, in "por dentro das palavras")

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Ser que nunca fui

 Começo a chorar
do que não finjo
porque me enamorei
de caminhos
por onde não fui
e regressei
sem ter nunca partido
para o norte aceso
no arremesso da esperança

Nessas noites
em que de sombra
me disfarcei
e incitei os objectos
na procura de outra cor
encorajei-me
a um luar sem pausa
e vencendo o tempo que se fez tarde
disse: o meu corpo começa aqui
e apontei para nada
porque me havia convertido ao sonho
de ser igual
aos que não são nunca iguais

Faltou-me viver onde estava
mas ensinei-me
a não estar completamente onde estive
e a cidade dormindo em mim
não me viu entrar
na cidade que em mim despertava

Houve lágrimas que mão matei
porque me fiz
de gestos que não prometi
e na noite abrindo-se
como toalha generosa
servi-me do meu desassossego
e assim me acrescentei
aos que sendo toda a gente
não foram nunca como toda a gente

(Mia Couto, in Raiz de Orvalho e Outros Poemas)


sábado, 1 de agosto de 2020

Coleccionador de olhos

Coleccionador de olhos
- trago os bolsos cheios
de imagens esmagadas, lágrimas incompletas,
desdéns já moles
e olhos verdes, azuis, castanhos, negros, berlindes,
bugalhos de fogueiras
- que oxalá não me incendeiem as algibeiras!

Faltam-me os teus.

Mas quando ia apanhá-los,
voaram-te das órbitas
com duas asinhas pretas,
a saltarem de mesa em mesa...

Ah! se eu tivesse trazido a minha rede de caçar borboletas!

(José Gomes Ferreira, in Poesia III)

domingo, 12 de julho de 2020

Para te dizer o quanto te quero

Para te dizer
o quanto te quero
invento o etéreo verbo
a palavra perfeita
na sintaxe de um poema,
farpado da alma a doer
como uma laçada feita ao peito
cordão de uma ponte só nossa,
suspensa
sobre um rio alucinado
que invadindo louco todas as margens
nos afoga a alma e nos afasta

Contendo-te...
de mergulhar na doçura dos meus olhos

Impedindo-me...
de te dizer o quanto te quero

(Maria João de Carvalho Martins, in "Do outro lado do espelho"

domingo, 5 de julho de 2020

SEM UMA DESPEDIDA

Tenho cinco minutos do tempo que resta, tenho uma caneta em que a tinta lhe falha e falta-me a força, ainda assim, num último fôlego tenho uma voz rouca que procura por ti... em vão!
Ainda me faltam tantas palavras em tantas melodias para cantar ao teu ouvido, num cúmplice segredo...
E tu? Que sempre desejaste esse momento, sem nunca o pedires, sem que os teus olhos escondessem esse desejo em que um dia neles o li... nunca tive a coragem de assumir esse interpretação como a correcta, como a real...
Agora é tarde demais... porque te perdi! Agora é tarde demais, essencialmente porque te perdi...
Nem o tempo soube gerir, para oferecer a minha despedida!

(Paulo Afonso Ramos, in Mínimos Instantes)

sábado, 20 de junho de 2020

Estou cansada

Sim, hoje estou cansada. E tu nem imaginas
O quanto careço do teu abraço. Estou cansada.
Preciso dos teus braços, De sentir as tuas mãos
Afagarem os meus cabelos, Os teus beijos
percorrerem meu rosto. Preciso da tua calma,
Do teu porto de abrigo. Sê o meu mar,
que, mesmo em dias revoltos, Me acalma e serena.
Estou cansada, Estou tão cansada.
Preciso de te contar O que dentro de mim Me deixa neste mar revolto.
Preciso das tuas palavras
Que são como o mar Que dentro de mim entra
E nele me deixa navegar. Acolhe-me nos teus braços,
E deixa-me apenas ficar, Não me faças perguntas,
Hoje não quero falar. Deixa as minhas lágrimas correr
Preciso esvaziar este mar Que dentro de mim teima em não serenar.
Abraça-me, quero sentir o teu aroma,
Como se fosses a brisa que vem do mar.
Puxa o meu corpo para o teu, Quero nele ficar.
Não me peças para falar, Estou cansada, Hoje quero apenas
No teu regaço descansar, Nos teus braços ficar, E nos teus
beijos mergulhar.
Abre os braços Deixa-me aqui ancorar. Estou cansada 
Quero apenas em ti ancorar.

(Carla Ribeiro in Ser Mulher, livro solidário a favor da luta contra o cancro da mama)