domingo, 5 de julho de 2020

SEM UMA DESPEDIDA

Tenho cinco minutos do tempo que resta, tenho uma caneta em que a tinta lhe falha e falta-me a força, ainda assim, num último fôlego tenho uma voz rouca que procura por ti... em vão!
Ainda me faltam tantas palavras em tantas melodias para cantar ao teu ouvido, num cúmplice segredo...
E tu? Que sempre desejaste esse momento, sem nunca o pedires, sem que os teus olhos escondessem esse desejo em que um dia neles o li... nunca tive a coragem de assumir esse interpretação como a correcta, como a real...
Agora é tarde demais... porque te perdi! Agora é tarde demais, essencialmente porque te perdi...
Nem o tempo soube gerir, para oferecer a minha despedida!

(Paulo Afonso Ramos, in Mínimos Instantes)

sábado, 20 de junho de 2020

Estou cansada

Sim, hoje estou cansada. E tu nem imaginas
O quanto careço do teu abraço. Estou cansada.
Preciso dos teus braços, De sentir as tuas mãos
Afagarem os meus cabelos, Os teus beijos
percorrerem meu rosto. Preciso da tua calma,
Do teu porto de abrigo. Sê o meu mar,
que, mesmo em dias revoltos, Me acalma e serena.
Estou cansada, Estou tão cansada.
Preciso de te contar O que dentro de mim Me deixa neste mar revolto.
Preciso das tuas palavras
Que são como o mar Que dentro de mim entra
E nele me deixa navegar. Acolhe-me nos teus braços,
E deixa-me apenas ficar, Não me faças perguntas,
Hoje não quero falar. Deixa as minhas lágrimas correr
Preciso esvaziar este mar Que dentro de mim teima em não serenar.
Abraça-me, quero sentir o teu aroma,
Como se fosses a brisa que vem do mar.
Puxa o meu corpo para o teu, Quero nele ficar.
Não me peças para falar, Estou cansada, Hoje quero apenas
No teu regaço descansar, Nos teus braços ficar, E nos teus
beijos mergulhar.
Abre os braços Deixa-me aqui ancorar. Estou cansada 
Quero apenas em ti ancorar.

(Carla Ribeiro in Ser Mulher, livro solidário a favor da luta contra o cancro da mama)

domingo, 7 de junho de 2020

ESPERA

Dei-te a solidão do dia inteiro.
Na praia deserta, brincando com a areia,
No silêncio que apenas quebrava a maré cheia
A gritar o seu eterno insulto,
Longamente esperei que o teu vulto
Rompesse o nevoeiro.

(Sophia de Mello Breyner Andresen, in Mar)

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Lagrima de preta

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.
 
Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.
 
Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.
 
Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.
 
Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:
 
Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.


(António Gedeão)

domingo, 31 de maio de 2020

Africana Musa

Trazes contigo a África
em teu peito
mulher-menina
de sonhos perdidos
em terra que não sentes tua.
O teu coração pulsa
ao som dos tambores
das noites longas
e longínquas
de negro céu
e iluminada lua.

No teu sorriso
há um pôr-de-sol,
vermelho e quente,
beijando, misterioso,
o mar dourado,
docemente.

No teu olhar,
ausente,
há um horizonte imenso
de recordações
e saudade,
onde a sensualidade
emerge e anseia
por um momento de amor,
com carícias de mar,
em leito de areia.

(Mário Mendes, in "A pena, que apenas..."

quarta-feira, 13 de maio de 2020

A-MAR

Dissolvo a esperança na espuma
repenso o passo
percorro a linha do sol
estremeço e solto o beijo
sem destino.
Desejo o mar e desejo amar
desejo abrir o livro aberto, mas
tão fechado valsar o silêncio
fazer rimar a prosa, desejo-te e no entanto
não saí daqui, inquieta, a pensar em ti
e, perante o mar, recuso o sonho
e escrevo para ti
dando vida ao grito e espaço ao passo
recuo, mas avanço
em direcção ao mar e dissolvo no tempo,
para sempre o verbo
A-mar.

(Olívia Santos, in "Nos teus olhos a janela do tempo"

segunda-feira, 11 de maio de 2020

NÃO ESPERES MAIS POR MIM

Segue o caminho da noite,
não pares.
Não esperes palavras minhas,
segue e vive.
Procura sorrisos,
corpos
que te encantem...
Caminha pelo dia
sem mim.
Preenche os teus pensamentos
com o calor do sol,
ocupa os teus olhos
com as cores
que encontras...
Não esperes mais por mim,
se quiseres o meu olhar
procura no céu,
estarei lá a brilhar
para ti...

Se quiseres o meu corpo
entra no mar
sentirás a força do meu abraçar.
Mas,
não esperes mais por mim.
Calarei o meu amor por ti,
guardarei os meus sentimentos
como jóias antigas,
recordações
que não conseguimos largar.
Ficarão num guarda-jóias,
a chave será enterrada
naquela praia
que não nos esquece...
Sabes que te quero
e é por isso
que te peço.
Não esperes mais por mim.

(Vanda Paz, in "Brisas do Mar")