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domingo, 12 de julho de 2020

Para te dizer o quanto te quero

Para te dizer
o quanto te quero
invento o etéreo verbo
a palavra perfeita
na sintaxe de um poema,
farpado da alma a doer
como uma laçada feita ao peito
cordão de uma ponte só nossa,
suspensa
sobre um rio alucinado
que invadindo louco todas as margens
nos afoga a alma e nos afasta

Contendo-te...
de mergulhar na doçura dos meus olhos

Impedindo-me...
de te dizer o quanto te quero

(Maria João de Carvalho Martins, in "Do outro lado do espelho"

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Oração do silêncio

Creio no silêncio...
na suavidade dos gestos,
na ternura das palavras não ditas.

Creio na cor dos sentidos
que pintam os voos de borboletas feridas.

Creio na simplicidade...
daquilo que dou,
daquilo que tenho.

E surpreendida me espanto
com tudo o que sou,
com tudo o que é belo.

E no silêncio me encontro
E em silêncio me espero!

(Maria João de Carvalho Martins, in Do outro lado do espelho)

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Para onde vais?

Para onde vais?
Perguntas a medo.

Sou leme, sou vela
sou barco sem rumo
que dorme em teu cais
em segredo.

Para onde vais?
Queres mesmo saber...

Vou pintar de água doce
o mar que navegas
com o coração
a bater.

Não me perguntas mais:
Para onde vais?

Irei, serei, aqui e tão só
pedra nua, suave nevoeiro
uma alma que se cola à tua
e assim abraça o mundo inteiro!

(Maria João de Carvalho Martins, in "Do outro lado do espelho")

sábado, 20 de agosto de 2011

Singular modo de amar

No contorno fino dos teus lábios
adivinho-te em palavras
protegidas de outros verbos
nuas, frias, lassas
à espera que das minhas, nasçam
os milagres que te confortam.

Mas ouves leves cicios apenas,
da alma que um dia cantou ao vento
em fogo lento
e hoje é gélida ave sem asas
sem penas
presa à inevitabilidade do tempo.


Recuo pois, nas premissas
nas certezas que me lastimam
e concluem o que não posso dar-te.

Beijo-te apenas...
Sigilando no abismo do silêncio
este meu singular modo de amar-te.

(Maria João de Carvalho Martins, in "Do outro lado do espelho")

domingo, 10 de julho de 2011

Fazes-me falta

À beira de mim,
reduto do que sou
anelo de existência,
ajoelho-me no mar
e nele entrego o meu pretérito,
dor assilábica
de todas as rezas de invernia.
Espero-te,
como quem espera o regresso dos deuses
no resgate das conchas
E sei,
porque simplesmente sei,
que é cíclica a melodia
das ondas,
enquanto aguardo no cais
o silêncio manso
da tua chegada.
Mesmo que errante no ocaso
será a surpresa da tua voz
que dançará na minha pele,
como um hino perfumado
tremulando na alma
até à colheita,
do doce manto de tulipas brancas
que há muito crescem,
serenas,
à tona d'água,
crendo no beijo colorido
dos teus olhos.
Só elas sabem
o quanto me fazes falta.

(Maria João de Carvalho Martins, in "Do outro lado do espelho")