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terça-feira, 17 de janeiro de 2023

DIZER AMOR AO MEU AMOR

Sabes, às vezes dizer amor é tão difícil 
os modos, os tempos, as vertigens
tudo tão etéreo e tão diferente 
e as palavras? Ah, essas as palavras são traidoras 
misturam-se em jogos difusos que querem dizer tudo 
e por tantas vezes, afinal não querem dizer nada 
dizer amor é tão difícil, sabes? 
Senti-lo não. Isso não. 
Senti-lo é simples, é assim como se quem o sente 
fosse de repente mariposa 
ou uma flor que se deslumbra ao sol 
que cresce e por vezes desvanece 
mas sempre volta a renascer 
deslumbrada pelo mesmo sol. 
Sentir o amor é isto mesmo 
amor sem dúvida, amor crescente 
amor azul. Sentir o amor é simples. 
Dizê-lo não. Dizê-lo só sabem os poetas 
os que o são. Sentir o amor é simples 
como simples é a razão deste poema: Tu! 
A quem amo simplesmente 
como quem ama de verdade, simplesmente 
mesmo acreditando na certeza do quanto é difícil 
dizer o amor. 

Olívia Santos, in "Nos teus olhos a janela do tempo"

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Se tu vens

 Se dizes que vens
crescem-me açucenas no cabelo
voam-me andorinhas do olhar
há lava de vulcão na minha pele
e tremores de terra por baixo dos meus pés.
Se dizes que vens
sopro a coincidência dos silêncios
e faço da alma uma escultura de palavras.

(Olívia Santos, in "Nos teus olhos a janela do tempo")


quarta-feira, 13 de maio de 2020

A-MAR

Dissolvo a esperança na espuma
repenso o passo
percorro a linha do sol
estremeço e solto o beijo
sem destino.
Desejo o mar e desejo amar
desejo abrir o livro aberto, mas
tão fechado valsar o silêncio
fazer rimar a prosa, desejo-te e no entanto
não saí daqui, inquieta, a pensar em ti
e, perante o mar, recuso o sonho
e escrevo para ti
dando vida ao grito e espaço ao passo
recuo, mas avanço
em direcção ao mar e dissolvo no tempo,
para sempre o verbo
A-mar.

(Olívia Santos, in "Nos teus olhos a janela do tempo"

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Nasce o dia

Gritam gaivotas, nasce o dia,
a areia beija a madrugada,
enquanto a lua sucumbe à nostalgia.
A praia vazia, um pescador cansado.
Barcos ao longe ondulam devagar
a esperança cresce, em movimento alado
pára-se o tempo,
engana-se o medo
e depois, logo depois
afundam-se os sonhos
neste mar revolto,
nestas marés vivas
nestes infinitos ecos
de silêncio!

(Olívia Santos, in "Nos teus olhos a janela do tempo")

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Momentos

Há momentos em que as almas se unem
se tocam, se enlaçam, se soltam
e se abraçam sem nada dizer.
Momentos de olhares rasos de água
soltando silêncios repletos de sons
Talvez Chopin nos nocturnos ou cantatas de Bach.
Momentos brilhantes de estrelas, de luas
plasmadas no olhar. Momentos de pele
indeléveis, macios. Momentos de nuvens
que entornam uma chuva de amor infinito.
Momentos por dentro do tempo
em que as mãos se entendem, se entregam
se aquecem, se unem. Momentos de luz
de verdade, carinho, amizade e da mistura doce
de amor e saudade. Momentos que não querer partir.
De versos e prosas, de rir e chorar
momentos sem nome que nenhum poeta
consegue explicar.
Há momentos assim, que de tanto sentir,
a vida nos basta.

Olívia Santos, in "Nos teus olhos a janela do tempo"